Escrito por Jordan M. Hampel e Timothy M. Fan
A hipercalcemia felina é encontrada com frequência na clínica veterinária. Este artigo aborda os testes diagnósticos, os diferenciais clínicos e as estratégias terapêuticas para a condição.
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O cálcio é um cátion divalente essencial que participa de inúmeras funções intracelulares e extracelulares vitais, incluindo transmissão neuromuscular, reações enzimáticas, coagulação hemostática, tônus vasomotor, secreção hormonal, e metabolismo ósseo. O cálcio existe em três formas no organismo, a saber: ionizado, ligado a proteínas, e complexado com frações aniônicas. O cálcio ionizado (iCa) compõe cerca de 50% do cálcio sérico total e atua como a principal forma biologicamente ativa responsável por coordenar diversas funções fisiológicas e celulares. Dadas suas amplas funções biológicas, as concentrações de iCa são estreitamente reguladas por meio das ações conjuntas do paratormônio (PTH), da 1,25-di-hidroxivitamina D3 (calcitriol) e da calcitonina [1],[2],[3]. Os níveis de iCa afetam diretamente a secreção de PTH e a maturação ativa da vitamina D para regular as concentrações de cálcio no corpo.
Além das diferentes formas de cálcio, a distribuição desse mineral dentro do corpo pode ser intra ou extracelular. O cálcio intracelular é um dos principais reguladores das respostas celulares a muitos agonistas mediados por receptores acoplados à proteína G e atua como um segundo mensageiro comum para transmitir sinais da superfície celular para o núcleo e, em última análise, é responsável por mudanças na transcrição gênica, nos comportamentos celulares associados, e no fenótipo [4]. Dentro das células, as concentrações de cálcio citosólico são baixas; no entanto, organelas específicas, incluindo o retículo endoplasmático e as mitocôndrias, são ricas em cálcio intracelular, e esse cálcio é necessário para o metabolismo fisiológico das células. Complementando os papéis cruciais desempenhados pelo cálcio intracelular, a concentração de cálcio no líquido extracelular regula as funções de tecidos organizados ao nível dos órgãos, incluindo a glândula paratireoide, o rim e a tireoide [2].
Para manter concentrações estáveis de cálcio ionizado, os principais mediadores endócrinos (ou seja, PTH, calcitriol e calcitonina) desempenham atividades biológicas em três órgãos-alvo: rins, intestinos e esqueleto [2],[5]. O PTH controla as flutuações minuto a minuto dos níveis de cálcio; se os níveis séricos aumentarem, a secreção de PTH é regulada negativamente, levando à perda líquida (real) de cálcio através dos túbulos distais nos rins, redução na absorção intestinal de cálcio e diminuição na reabsorção óssea por osteoclastos [2],[6]. Se os níveis de cálcio diminuírem, o PTH aumentado age nos túbulos renais distais, provocando a reabsorção de cálcio e a excreção de fósforo, além de atuar indiretamente nos intestinos, aumentando a absorção de cálcio e fósforo. Além disso, o PTH atua nos tecidos esqueléticos, estimulando a atividade das células osteoblásticas existentes (efeito precoce) ou aumentando o número de osteoclastos e a atividade de reabsorção óssea destas células (efeito tardio) [5],[7].
O calcitriol serve para estimular a absorção intestinal de cálcio, inibir a síntese de PTH pela redução da transcrição do RNAm desse hormônio, promover a reabsorção óssea por osteoclastos e, por feedback negativo, agir sobre sua própria síntese nas células epiteliais renais [5]. A calcitonina é secretada quando estimulada pela hipercalcemia ou pela ingestão de refeições ricas em cálcio por meio da secreção entérica de gastrina e colecistocinina. Embora não seja um fator importante na regulação minuto a minuto do cálcio, a calcitonina serve como um hormônio de emergência para reduzir os níveis de cálcio sérico e desempenha um papel contrarregulador vital caso haja um rápido aumento na concentração. A principal função da calcitonina é inibir a reabsorção óssea por osteoclastos [8].
Os sinais de hipercalcemia em gatos podem ser vagos, intermitentes, inespecíficos e, muitas vezes, passam despercebidos pelos tutores. No geral, a anorexia é o sinal clínico mais comum, mas com frequência também há relatos de vômitos, letargia, fraqueza, constipação, poliúria e polidipsia (PU/PD) [9],[10]. Alguns gatos podem apresentar sinais de doença do trato urinário inferior associados ao aumento da calciurese e ao desenvolvimento de cálculos de oxalato de cálcio [11], portanto, a ocorrência de obstrução urinária atribuída à urolitíase é uma possível apresentação. A PU/PD é descrita com menor frequência em gatos do que em cães com hipercalcemia, talvez porque a espécie felina consegue concentrar urina em maior grau [3].
Para descartar causas conhecidas de hipercalcemia, é necessária uma abordagem clínica sistemática (Figura 1), devendo incluir exame físico completo, hemograma completo, bioquímica sérica, urinálise, medição das concentrações de iCa e PTH, além da obtenção de imagens das cavidades torácica e abdominal por radiografia e ultrassonografia, respectivamente. Testes de diagnóstico complementares para estabelecer uma base de dados mais completa e abrangente podem compreender a quantificação das concentrações séricas de 25-hidroxivitamina D, 24,25(OH)2-vitamina D, calcitriol e peptídeo relacionado ao paratormônio (PTH-rP), bem como o uso de técnicas de imagem mais avançadas, incluindo ultrassonografia da região cervical (i. e., do pescoço) para identificar nódulos suspeitos na paratireoide ou tomografia computadorizada (TC) para detectar neoplasia oculta.
Jordan M. Hampel
A hipercalcemia felina pode estar associada a uma série de doenças, incluindo malignidades cancerígenas, insuficiência renal, desequilíbrios endócrinos, e toxicose. Curiosamente, o uso mais amplo de alimentos prescritos ou suplementos para promover a acidificação urinária na prevenção de urolitíase foi reconhecido há pouco tempo como uma causa emergente de hipercalcemia em gatos [11],[17]. Apesar da grande variedade de causas e sintomas clínicos (Figura 3), a causa mais comum continua sendo a hipercalcemia idiopática em muitos estudos, e é o único diagnóstico diferencial exclusivo para gatos. Pesquisas de grande porte identificaram as três principais causas de hipercalcemia felina como:
Outras causas menos comuns são hiperparatireoidismo primário, doença granulomatosa, hipervitaminose D, e hipoadrenocorticismo [9]. Embora a causa mais comum de hipercalcemia seja de natureza idiopática, trata-se de um diagnóstico de exclusão e, de preferência, outros diferenciais devem ser sistematicamente excluídos antes de aceitar a hipercalcemia idiopática como a principal causa dessa anormalidade bioquímica.
Vários fatores devem ser considerados ao elaborar um plano terapêutico para gatos acometidos (Tabela 1), incluindo o grau, a taxa de desenvolvimento e a evolução da hipercalcemia, bem como os efeitos modificadores de outros distúrbios eletrolíticos e ácido-básicos. Não há nenhum tratamento único recomendado para o controle de todos os casos; por essa razão, deve-se identificar e tratar a causa subjacente da devida forma. A terapia de suporte visa aumentar a excreção renal de cálcio e prevenir a reabsorção desse mineral a partir do osso.
Tabela 1. Opções de tratamento para hipercalcemia em gatos.
| Fármaco e dosagem | Indicações | Mecanismo de ação |
|---|---|---|
| Furosemida 1-2 mg/kg IV, VO, SC a cada 8 a 12 horas |
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Prednisona/prednisolona 0,5-1 mg/kg VO a cada 12 a 24 horas Dexametasona |
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| Pamidronato 1-2 mg/kg em infusão IV durante 2 horas em NaCl a 0,9%; repetir a cada 21 a 28 dias |
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| Alendronato 5-20 mg/gato VO a cada 7 dias |
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| Calcitonina 4-6 UI/kg SC a cada 8 a 12 horas |
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Timothy M. Fan
O cálcio é um elemento abundante responsável por processos fisiológicos e metabólicos normais. As concentrações de cálcio ionizado biologicamente ativo são reguladas de forma bastante estreita no organismo, e alterações podem levar a efeitos sistêmicos significativos e prejudiciais em múltiplos órgãos. Embora sejam identificadas diversas doenças capazes de causar desregulação na homeostase do cálcio felino, resultando em hipercalcemia e danos associados a tecidos/órgãos, a causa mais comum é idiopática. Embora a maioria dos sinais clínicos seja frequentemente não específica, a detecção precoce da causa subjacente é importante. Uma vez identificada a hipercalcemia, a instituição do tratamento definitivo e dos cuidados de suporte irá minimizar as complicações potencialmente fatais e maximizar as chances de alcançar o resultado mais favorável.
DVM, Departamento de Medicina Veterinária Clínica, Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (UIUC), Urbana, IL, Estados Unidos
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A Dra. Hampel recebeu seu título de médica-veterinária pela Universidade de Illinois em 2020 e, em seguida, concluiu um estágio rotativo em pequenos animais na Universidade do Estado do Michigan. Ela retornou à UIUC para dar continuidade à sua formação como estagiária de ensaios clínicos dedicados à oncologia e, atualmente, é residente em Oncologia Médica e está fazendo Mestrado em Ciências, com foco em estratégias específicas para amplificar as atividades citotóxicas da radioterapia ionizante.
DVM, PhD, Dipl. ACVIM (Oncologia, Medicina Interna), Departamento de Medicina Veterinária Clínica, Centro Oncológico em UIUC, Urbana, IL, Estados Unidos
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O Dr. Fan recebeu seu título de médico-veterinário pela Faculdade Regional de Medicina Veterinária Virginia-Maryland em 1995 e prosseguiu sua formação até obter a certificação em Medicina Interna e Oncologia de Pequenos Animais na Universidade de Cornell e na UIUC, respectivamente. Ele então concluiu o doutorado, com foco em imunologia de tumores em Illinois, e se juntou ao corpo docente onde é professor, um dos principais membros do projeto de pesquisa Anticancer Discovery from Pets to People (Descobertas Contra o Câncer de Pets para Pessoas) e, no Centro Oncológico em Illinois, é líder do programa que envolve animais de companhia como modelos sofisticados para estudar o câncer.
O diagnstico preciso (exato) da hipercalcemia felina e de sua causa subjacente geralmente requer uma combinao de exame fsico, medio dos principais analitos, e estudos de imagem.
As causas mais comuns de nveis elevados de clcio em gatos so hipercalcemia idioptica, doena renal crnica, e determinados tipos de neoplasia.
Intoxicao por vitamina D, endocrinopatias e doenas granulomatosas crnicas so causas menos usuais de hipercalcemia.
Os sinais de hipercalcemia podem estar ausentes ou ser de natureza sutil, e a identificao imediata da causa subjacente e o tratamento apropriado para intensificar a calciurese so essenciais para o manejo do paciente e a obteno de resultado favorvel.